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sábado, 21 de junho de 2008

Essências

Poesia Gaúcha

Autor: Wilson Araújo
(poesia finalista da Sesmaria da Poesia Gaúcha / Osório - 1999)

Um galpão, um fogo de chão,
um manojo de jujos pendurado à parede.
Uma tira de couro que ganhou de um amigo,
para os dias de chuva,
nos finais de semana,
tirar alguns tentos e ensaiar
uma trança que aprendeu
com o pai quando era guri.

Em riba de um cepo
um pelego sovado.
No canto da mesa,
uma massa de carreta suportando uma cuia.
Uma chaleira de ferro,
uma panela três pernas
que descansa em
silêncio na trempe cilhona
dos fogões campeiros.

O Chiar da cambona,
encostada nas brasas, ressona
com calma o seu musical.
E traz na lembrança as coisas
marcantes, quando deixou a Querência:
por motivos que a vida
impôs no caminho.

O Verde dos campos, com marcas
salientes dos capões de mato.
As sangas correndo em direção ao rio
- refletem retratos -
que seus olhos viram num
tempo saudoso que ficou
pra trás.

O Rubro do fogo, que
seus olhos vêem é a barra do dia,
surgindo bonita de trás do
horizonte!

O Canto dos pássaros!
O Berro do boi!
E o relincho dos potros,
ficam nítidos e puros,
nos poemas campeiros que os
poetas escrevem musicando a vida.

Que as ondas sonoras de
um rádio de pilhas lhe trás
para o rancho.

O Sentimento terrunho
que trazes no peito,
abastece a alma!
Com as coisas mais lindas
que o pago lhe deu:
a infância, o respeito, o amor
pela terra e o valor profundo;
Que ficou na resteva da vida,
de seus ancestrais!

Mas, quando a alma campeira
vazia de campos retouça
no peito a saudade maior,
as lembranças tranqueiam
retesando o garrão,
vencendo o repecho da vida
de um homem que mateia pensando,
sentindo o conforto de uma vida
urbana que tem ao redor!

Por isso um galpão, retrato de ontem
reproduz a Querência!
Porque mudar uma planta para outra terra,
ficam marcas no chão...
Rebrotam outros galhos
mas, mas não muda a essência!

Autor: Wilson Araújo
(poesia finalista da Sesmaria da Poesia Gaúcha / Osório - 1999)

Poesia Gaúcha!


Aqui estou, Sr. Inverno

Poesia Gaúcha!

Autoria: Aureliano de Figueiredo Pinto

Já sei que chegas, Inverno velho!
Já sei que trazes - bárbaro! O frio
e as longas chuvas sobre os beirais.
Começo a olhar-me, como em espelho,
nos meus recuerdos... Olho e sorrio
como sorriram meus ancestrais.

Sei que vens vindo... Não me amedrontas!
Fiz provisões de sábias quietudes
e de silêncios - que prevenido!

Vão-se-me os olhos nas folhas tontas
como simbólicos ataúdes
rolando ao nada do teu olvido.

Aqui me encontras... Nunca deserto
do uivo dos ventos e das matilhas
de angústias vindo sem parcimônias.
Chega ao meu rancho que estou desperto:
- sou veterano de cem vigílias,
sou tapejara de mil insônias.

Aqui estarei... Na erma hora morta,
junto da lâmpada, com que sonho,
não temo estilhas de funda ou arco.
Tuas maretas de porta em porta,
os teus furores de trom medonho
não trazem pânico ao bravo barco.

Na caravela ou sobre a alvadia
terra do pampa - cerros e ondas
meu tino e rumo não mudarão.
No alto da torre que o mar vigia,
ou, sem querência, por longas rondas,
não me estrangulas de solidão.

Tua estratégia de assalto e espera
conheço-a muito, fina e feroz:
de neve matas; matas de mágoa;
derramas nalma um frio de tapera;
nanas ausências a meia voz
e os olhos turvos de rasos d'água.

Comigo, nunca... Se estou blindado!
Resisto assédios, que bem conduzes,
no legendário fortim roqueiro.
Brama as tuas fúrias de alucinado!
- Fico mais calmo que as velhas cruzes
braços abertos para o pampeiro.

Os meus fantasmas bem sei que animas
para, num pranto de vãs memórias,
virem num coro de procissão
trazer-me o embalo de velhas rimas.
- À intimidade dessas histórias
tenho aço e bronze no coração.

Então soluças pelas janelas,
gemes e imprecas pelos oitões,
galopas louco sobre as rajadas,
possesso, ululas entre procelas.
E ébrio, nas noites destes rincões
lampejas brilhos de punhaladas.

Inútil tudo! Vê que estou firme.
Nenhum receio me turba o aspeto,
nenhuma sombra me nubla o olhar.
Contigo sempre conto medir-me
frio, impassível, bravo e correto
como um guerreiro que ia a ultramar.

Reconciliemo-nos, velho Inverno!
Nem és tão rude! Tão frio não sou...
Venha um abraço muito fraterno.
Olha...
Esta lágrima que rolou
não a repares...
É de homenagem
a alguém que aos céus se fez de viagem,
e nunca... nunca! Nunca mais voltou...

Autoria: Aureliano de Figueiredo Pinto

Poesia Gaúcha!

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Pedro Ortaça

Grande cantor nativista do RS.
"Pedro Ortaça, surgiu após os grandes luminares Jayme Caetano Braun e Noel Guarany, e ao mesmo tempo que Cenair Maicá.
Ele veio de baixo e silenciosamente, como um veio d'água que traz em si os íntimos segredos da terra de que brota. Afirmou-se pelos anos, ombreou-se com seus irmãos da mesma luta.
Afinou sua guitarra pelo timbre dos sinos das catedrais jesuíticas que o tempo fez ruir; alteou seu canto com reflexos de picumã galponeiro pelos 4 pontos cardeais do estado; superou as fronteiras da "pequena pátria" e hoje é conhecido como uma das mais originais expressões da terra, do povo e dos costumes das Missões.
Ele, sua viola e sua voz, não apenas canta e toca. Ensina, agride, protesta e toma posições.
Divide, o seu talento porque sabe e conhece e proclama que os "missioneiros", de nascimento ou por adoção anímica, são uma única e potente voz a reverenciar, os legados de flor e lança, sangue e sêmen que lhes deixou os 7 Povos.”

fonte:
Apparicio Silva Rillo

São Borja, 4/7/89




"Eu me chamo Pedro Ortaça,
nascido lá no Pontão.
Sempre cantei minha terra,
com raça, fibra e garrão.
Queira Deus que eu cruze o mundo
sem nunca negar o meu chão."
Pedro Ortaça


Pedro Ortaça - Timbre De Galo




Timbre de Galo

Pedro Ortaça

Composição: (Aparício Silva/Rillo/Pedro Ortaça)

Rio Grande, berro de touro,
quatro patas de cavalo.
Quem não viveu este tempo,
vive esse tempo a cantá-lo
e eu canto porque me agrada
neste meu timbre de galo.

É verdade que alguns dizem
que os tempos de hoje são outros,
que o campo é quase a cidade
e os chiripás estão rotos,
que as esporas silenciaram
na carne morta dos potros...

Cada um diz o que pensa -
isso aprendi de infância,
mas nunca esqueça o herege
que as cidades de importância
se ergueram nos alicerces
dos fortins e das estâncias.

Não esqueça, de outra parte,
para honrar a descendência,
que tudo aquilo que muda,
muda só nas aparências
e até num bronze de praça
vive a raiz da querência.

Eu nasci no tempo errado
ou andei muito depressa,
dei ó de casa em tapera,
fiquei devendo promessa
mas se pudesse eu voltava
pra onde o Rio Grande começa.

E se me chamam de grosso,
nem me bate a passarinha.
A argila do mundo novo não
tem a mescla da minha,
sovada a cascos de touro,
com águas de carquejinha...

Rio Grande, berro de touro,
quatro patas de cavalo !
Quem não viveu esse tempo
vive esse tempo ao cantá-lo,
e eu canto porque me agrada
neste meu timbre de galo...



quarta-feira, 21 de maio de 2008

Esquilador - Telmo de Lima Freitas


Uma das mais belas canções gaúchas de todos os tempos: Esquilador de Telmo de Lima Freitas.

Natural de São Borja, Nascido em 13/01/1933. Respeitado poeta e compositor, é autor do clássico "Esquilador" que recebeu a Calhandra de Ouro na IX Califórnia da Canção Nativa interpretada por Edson Otto e os Cantores dos Sete Povos, grupo do qual foi integrante. Tem uma forma de compor semelhante aos gaúchos platinos. Possuiu quatro discos gravados. Entre suas composições gravadas por outros artistas está o bugio "Resto de baile", parceria com José Antônio Hann e gravada pelo grupo "Os Serranos".

9ª CALIFÓRNIA 1979 - 1º LUGAR: ESQUILADOR





Quando é tempo de tosquia
já clareia o dia com outro sabor,
As tesouras cortam em um só compasso
enrijecendo o braço do esquilador

Um descascarreia, outro já maneia
e vai levantando para o tosador
Avental de estopa, faixa na cintura
e um gole de pura pra espantar o calor.

Alma branca igual ao velo
tosando a martelo quase envelheceu
Hoje perguntando para a própria vida
p'ronde foi lida que ele conheceu
Quase um pesadelo arrepia o pelo
do couro curtido do esquilador
Ao cambiar da sorte levou um singronaço
ouvindo o compasso tocado à motor.

A vida disfarça lembrando a comparsa
quando alinhavava o seu próprio chão
Envidou os pagos numa só parada
33 espada mas perdeu de mão
Nesta vida guapa vivendo de inhapa
vai voltar aos pagos para remoçar
Quem vendeu tesouras na ilusão povoeira
volte pra fronteira para se encontrar.


Comunidade no Orkut de Telmo de Lima Freitas:
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1151035
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=14833654

Rio Grande de 35

Rio Grande de 35
dos passados de vitória
que duraram quase 10 anos
nosso passados de glória

Aqui vai o meu abraço
e um forte aperto de mão
aos gaúchos que lutaram
em defesa deste chão